A cultura do brasileiro está incrustada de malandragem, pilantragem e picaretagem. Para qualquer lugar que olhamos vemos produtos piratas, sonegação de impostos, corrupção, propinas, nepotismo, falsidade ideológica, tráfico de influência, falsificação de documentos, mentiras, golpes e fraudes.
E não é de agora, ao ler o texto: “Jeitinho Brasileiro” no blog Art Perceptions (http://www.artperceptions.com/2011/10/o-jeitinho-brasileiro.html) podemos perceber que essa cultura de malandragem existe no Brasil desde os primórdios do descobrimento.
A distorção de valores é tão grande que ao invés de prezarmos pela meritocracia, onde a pessoa que tem maior mérito recebe o maior prêmio; a maioria da população preza pela mediocridade. Calma que eu explico e exemplifico.
Se alguém se dá mal em qualquer ramo de atividade, a maioria das pessoas sente pena: “que coitadinho... foi roubado, injustiçado, merecia coisa melhor”. Se a situação for no esporte por exemplo, ela seria a “campeã moral”, expressão criada pela imprensa esportiva brasileira, digna de quem não sabe perder uma competição. Agora se alguém começa a progredir na vida, se constrói ou produz alguma coisa com suor e trabalho, os primeiros comentários são bem pejorativos: “Aí tem coisa errada! Deve estar fazendo alguma mutreta! Deve ter se aliado com bandido! É uma injustiça esta pessoa ter tanto e existirem tantos outros pobres coitados sem nada!”
A distorção de valores pode chegar ao ponto em que pessoas que não compactuam com atitudes fraudulentas como sonegar impostos, falsificar documentos ou comprar produto pirata serem tachadas de otárias! Acontece que a grande maioria da população brasileira encontra-se num nível muito baixo de consciência ética.
Explicando melhor o que é ética, existem hoje em dia duas abordagens sobre o assunto, a ética de convicção e a ética de responsabilidade (utilitarismo). A primeira se preocupa com o cumprimento ou não de normas, regras, leis e princípios; e a segunda foca na análise das circunstâncias, dos riscos, custos e benefícios, e conseqüências das decisões. Baseado na combinação destes dois modelos é possível criar níveis de comportamento ético nas tomadas de decisão, e de forma bem simplificada são:
- egocêntrico, não faz análise das conseqüências - inconseqüente
- egocêntrico, faz análise dos riscos, porém tem medo de punições - medroso
- egocêntrico, porém faz uma análise de risco da situação e assumem as possíveis conseqüências - os fins justificam os meios
- egocêntrico, motivado por levar vantagem da situação - malandrão
- motivado pela aceitação do grupo independente de juízo moral - Maria vai com as outras
- motivado pelo cumprimento das leis ou regras, porém sem juízo moral, cumpre as leis cegamente - Caxias
- motivado pelo cumprimento das leis quando possível, porém com juízo moral, pode não fazer algo que fira seus princípios (religiosos, morais, passados pelos pais durante a infância e assim por diante) mesmo sendo "legal" - seguidor de princípios
- motivado pelo bem pessoal, e na medida do possível no bem da maioria - justo
- motivado pelo bem da maioria, exceto quando a maioria não o inclui - o falso altruísta
- motivado pelo bem da maioria mesmo não pertencendo a ela - altruísta
Obviamente é difícil saber como a população de um país se encontra nesta escala. Mas já ouvi dizer que aproximadamente 80% da população brasileira tomam suas decisões no quarto nível (malandrão).
Isso tem que mudar imediatamente! A única questão é que uma mudança cultural deste porte, que já tem uma inércia de 500 anos não acontece da noite para o dia, ela levaria muito tempo, entretanto a mudança cultural pode ser acelerada através da educação!
Se o Brasil tivesse um ensino de qualidade, mais crianças teriam acesso a uma boa educação. Uma criança que tem uma boa formação acaba evoluindo tanto o seu padrão de vida quanto o nível na escala de ética. Quanto mais jovens e adolescentes tiverem uma boa formação acadêmica, mais evoluirão na escala de ética.
O metrô de São Paulo tem a filosofia de manter as instalações as mais limpas possíveis. Se alguém suja o trem ou as passarelas, a equipe de limpeza é acionada rapidamente. O conceito por trás desta filosofia mostra é de inibir que as pessoas sujem o local público. Um metrô sujo, pixado e depredado acaba estimulando mais vandalismo. “Todo mundo joga lixo no chão, por que eu também não vou fazer o mesmo?”. Já um lugar limpo acaba inibindo este tipo de comportamento. Usando o mesmo raciocínio, um ambiente onde a maioria das pessoas não infringe as leis e condena atitudes antiéticas acaba estimulando as pessoas a fazer o mesmo, fazendo com que haja a evolução do quarto (malandrão) para o quinto (Maria vai com as outras) nível ético. Pode parecer pouco, mas este quinto nível é o primeiro em que a decisão é tomada com base em alguma análise do grupo (altruísmo) ao invés de apenas no indivíduo (egocentrismo) sendo, portanto uma das mais difíceis evoluções na escala.
Este é mais um exemplo de como a educação pode e deve se tornar um diferencial na evolução de uma nação. E o investimento em educação não é o único fator determinante para esta mudança cultural, outras coisas têm que acontecer em paralelo: pais têm que dar exemplo aos filhos, governantes tem que dar o exemplo para a população, a impunidade tem que acabar, as pessoas tem que acreditar no sistema, aos poucos as pessoas tem que criar uma consciência coletiva e perceber que unidas com um mesmo propósito elas conseguem ir mais longe.
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