Semana passada conversei com uma colega que é doutora em estatística. Ela me contou ficou 15 dias na Holanda para aprender uma nova metodologia e ao voltar irá ajudará a reformular totalmente um dos melhores cursos de economia do país. A nova metodologia que ela vai aprender é a PBL: Problem Based Learning, ou traduzindo: aprendizado através de problemas.
Aí conversei com a minha esposa, que é pedagoga, para entender melhor o que é PBL. Ela me explicou que esta metodologia é um meio termo entre o método tradicional e o construtivismo.
O processo tradicional de formação de conhecimento baseia-se apenas na orientação cognitiva, com teoria e prática repassada por um professor, este como principal agente, interagindo de maneira ativa, tornando assim o estudante, um agente passivo. Neste modelo não há incentivo, nem espaço, para desenvolver o auto-aprendizado.
Construtivismo é uma das correntes teóricas empenhadas em explicar como a inteligência humana se desenvolve partindo do princípio de que o desenvolvimento da inteligência é determinado pelas ações mútuas entre o indivíduo e o meio. Esta concepção do conhecimento e da aprendizagem que derivam, principalmente, das teorias da epistemologia genética de Jean Piaget e da pesquisa sócio-histórica de Lev Vygotsky, parte da idéia de que o homem não nasce inteligente, mas também não é passivo sob a influência do meio, isto é, ele responde aos estímulos externos agindo sobre eles para construir e organizar o seu próprio conhecimento, de forma cada vez mais elaborada.
O “Problem Based Learning” é uma linha pedagógica onde o aluno deixa de ser agente passivo e se torna agente ativo na busca do conhecimento e o professor deixa de ser o único agente ativo tornando-se um facilitador, mostrando aos alunos o caminho a ser seguido. O ciclo de aprendizado começa com o aluno lendo sozinho um material introdutório sobre o assunto, na seqüência, o professor apresenta aos alunos um problema a ser resolvido, despertando o interesse dos alunos. Esta quase “provocação” é o diferencial do processo, pois estimula a curiosidade e a criatividade dos alunos. Na seqüência os alunos devem se reunir em grupos para discutir e desenvolver um trabalho de preferência em um laboratório seja de física, química, ou apenas de informática mesmo. Após a apresentação dos trabalhos, o facilitador (professor) comanda uma grande discussão sobre os resultados, analisando as conclusões dos alunos e complementando com detalhes que eventualmente ficaram de fora.
Depois que entendi o que era PBL, lembrei que eu já tinha ouvido falar sobre isso. Eu conheço um colégio que já utiliza este método há algum tempo. É o Colégio Embraer (Colégio Engenheiro Juarez Wanderley). Ficou claro pra mim o porquê aqueles jovens são tão motivados e não vêem a hora de ir pra escola, o que raramente acontece com escolas com o método tradicional. Não sou especialista nem nada, mas me pareceu que com o PBL o pessoal conseguiu finalmente tornar o ensino algo mais agradável e atraente para todos os jovens.
Ótimo, então é só sair aplicando esta nova metodologia em tudo quanto é escola e pronto. Infelizmente não é tão simples assim. A Lei de Diretrizes e Bases de 1996 rege que o estado deve proporcionar educação de igual qualidade para todas as crianças do país, a chamada universalização da educação. A intenção da lei é perfeita, mas ela possui um efeito colateral complicado. Ao obrigar o estado a proporcionar educação de igual qualidade para todos, a lei engessa os processos de melhoria.
Suponha que o governo receba um estudo mostrando que a progressão continuada traz benefícios para o aprendizado das crianças, o ideal seria começar fazendo um teste com um grupo de crianças de uma determinada escola. Se os resultados forem bons, o teste poderia ser ampliado para mais crianças e mais escolas; e se os resultados continuassem bons o método poderia ser aplicado no país inteiro. Se os resultados não forem bons, seria mais fácil fazer um plano de contingência para reparar os prejuízos naquele grupo pequeno de crianças.
No entanto, dada a universalização da educação, este teste não pode ser feito porque por um dado momento o estado estaria proporcionando educação de diferente qualidade para um grupo de jovens. Se o estado quiser fazer um teste em relação a progressão continuada tem que baixar um decreto aplicando o novo método para todas as escolas públicas do país, mesmo não estando convencido da eficácia do método. Em caso negativo, teremos algumas gerações de jovens com prejuízo no aprendizado, impossibilitando que reparos sejam realizados.
O mesmo se aplica ao PBL. Como não é possível fazer testes com pequenos grupos de crianças de uma dada escola, as escolas públicas continuam com o método tradicional de ensino, apesar dos excelentes resultados do PBL.
Referências
PBL
Construtivismo
Lei de Diretrizes e Bases de 1996
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